quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Muro.

 Por Fernando Coelho

 Quando chegou ao palácio, Abidã foi recebido pelo mesmo criado. Novamente, o rapaz atravessou recintos decorados com imponentes painéis. A cada passo seu coração batia com mais força. A bondade do rei na primeira visita deixava Abidã menos temeroso, mas ele ainda se sentia inseguro.
 Na estrada da sala do trono, o criado se deteve. Abidã o imitou. No dia anterior a sala estava vazia, mas agora o rei, sentado no trono, cofiava sua barba. Poucos instantes depois Salomão falou, mas tão baixo que Abidã não conseguiu escutar. Os homens diante do rei fizeram um gesto de reverência com a cabeça.
 "O que está acontecendo?", perguntou Abidã ao criado.
 "O rei muitas vezes atua como juiz. Esses homens têm um litígio. O rei dará a palavra final. Sua sabedoria é conhecida em toda a parte."
  "E ele divide essa sabedoria com os outros?"
  "Não existiria sabedoria se ele não fizesse isso. Ele a divide com você. Ele a divide onde é necessário."
 Os homens deixaram a sala do trono e o criado conduziu Abidã ao seu interior. Bem no alto, perto do teto, a luz entrava pelas janelas, espalhando-se nas paredes. Salomão ficou de pé e fez um sinal para que Abidã se aproximasse.
 "É muito bom revê-lo, Abidã. Dormiu bem à noite?"
 "Pensei em tudo que vossa  Majestade me ensinou ontem."
 "E o que lhe pareceu? Correto?"
 "Sim, Majestade."
 Aparentemente satisfeito, Salomão desceu dos degraus entre o trono elevado e o chão de pedra.
 "Me acompanhe, Abidã. Quero lhe mostra algo", disse o rei.
 Abidã segui o rei a um passo de distância, na direção do pátio onde se encontraram no dia anterior, perto dos fundos do palácio. A curta distância, seis pedreiros cuidavam de um muro no jardim.
 "O que você está vendo?", perguntou Salomão.
 "Trabalhadores", afirmou Abidã. No entanto, ele logo percebeu que deveria ser mais específico e acrescentou: "Pedreiros".
 "O que eles estão fazendo?"
 "Trabalhando, Majestade."
 "Observe com mais atenção", afirmou Salomão, com um suspiro.
 Abidã analisou os homens por um instante. "Eles estão tirando as pedras do muro.'
 "Isso."
 "Não consigo entender, Majestade. O muro parece em boas condições e novo."
 "É novo", revelou Salomão. "Terminaram de contruí-lo somente há dez dias."
 "Então por que destruir o que acabou de ser construído?"
 "Foi bem construído, com solidez, mas não de acordo com o projeto. O homem que contratei para executar o serviço teve de viajar para a Galileia, enquanto seus ajudantes continuaram erguendo o muro. Ele deixou instruções claras sobre como isso deveria ser feito e a curva que deveria fazer. Na sua volta do norte, o muro estava pronto, mas não conforme as suas instruções."
 "Então o senhor ordenou que ele refizesse o trabalho?"
 " Não, eu não dei essa ordem."
 "Mas, majestade, ele está aqui com seus homens, trabalhando", afirmou Abidã, observando o rei.
 "Ele me procurou no dia do seu retorno da Galileia, desculpou-se e pediu minha permissão para remover a parte do muro em desacordo com o projeto e reconstruí-la como deveria ser. Claro que consenti."
 "Ele então se ofereceu para corrigir o erro?"
 "Ele assumiu a responsabilidade pelo seu trabalho. Ele se ofereceu para fazê-lo direito."
 "Não culpou seus empregados?"
 "Não, Abidã," respondeu Salomão, balançando a cabeça. "ele disse que o erro era dele."
 "Mas, Majestade, eles tava a muitos quilômetros de distância."
 "Realmente. O que isso ensina você?"
  "Ensina a contratar os serviços com sabedoria."
 "Sim, isso é sábio", afirmou Salomão, sorrindo. "Mas não é a lição de hoje. Tente de novo."
 "O pedreiro confiou nos seus homens para fazer o trabalho corretamente, mas eles não o fizeram, então..." Abidã perdeu o fio da meada. "Ele não culpou seus homens, mas se culpou."
 "Sim. Prossiga."
 "Não sei."
 "Acredito que você sabe. O que o mestre de obras e seus homens estão fazendo agora?"
 "Demolindo o muro e o reconstruindo."
 "Por quê?"
 "Porque foi construído errado...  E o mestre de obras acredita que sua responsabilidade é fazer o que disse que faria."
 "Muito bom, Abidã. A palavra 'responsabilidade' é a palavra-chave. O mestre de obras é um dos meus favoritos. Ele faz um trabalho excepcional, não porque eu exijo, mas porque ele assume a responsabilidade pelo seu serviço."
 "Então, para me tornar sábio, devo assumir minha responsabilidade em relação ao meu... trabalho?'
 "E às suas decisões, ao seu dinheiro, à sua família e a todo o resto."
"Entendo."
 Salomão cerrou os olhos e recitou: "Os pensamento do diligente o conduzem à abundância, enquanto o precipitado só acelera a vinda da pobreza."
 "Outro proverbio."
 "Sim. O que quer dizer?"
 "O trabalho duro conduz à riqueza."
 "Isso é verdade, mas não é a resposta correta. Eu não mencionei trabalho duro."
 Salomão repetiu o provérbio.
 "O senhor disse 'diligente'."
 "Um homem sábio é um homem diligente. Além de trabalhar duro, ele trabalha corretamente. Ele trabalha de acordo com um plano. Ele prevê o resultado final. Nosso mestre de obras tinha ideia de como o muro deveria ficar. Aquele era seu objetivo, mas os homens que ele deixou cuidando da obra não conseguiram materializar sua visão. Ele estava vendo isso por si mesmo. Qual é a lição que tiramos disso?"
 "Não confiar nos outros." Abidã viu o rei franzindo as sobrancelhas em desaprovação. "Ter um objetivo e trabalhar na sua direção."
 "Sim. E quem é responsável por esse objetivo?"
 "O mestre de obras."
 "E na sua vida?"
 A resposta ficou evidente para Abidã: "Eu sou o responsável. Para ser sábio e acumular riqueza, devo ser diligente; trabalhar duro com um propósito claro. Sou o responsável por aquilo que sonho, por aquilo que faço".
 "Você cresce em sabedoria, Abidã, mas cuidado. Você deve enxergar além do dinheiro. Quem ama o dinheiro nunca tem o suficiente; quem ama a riqueza nunca está satisfeito com o que ganha."
 "Acho que compreendi. O pedreiro faz esse trabalho a mais não por causa do dinheiro, mas porque é responsável pela aparência do muro e pelo lugar em que este está construindo."
 "O mestre de obras acredita que está perdendo dinheiro; o que , de fato, ele está, por enquanto. Mas eu recompensarei sua diligência. Agora. Abidã, diga-me em uma linha o que você aprendeu."
 "Só eu sou responsável pelos meus sonhos, pelo meu dinheiro e pelo o meu trabalho. Para ser sábio, devo ser diligente em todas essas coisas."
 "São duas linhas, Abidã, mas é aceitável." Salomão se virou e começou a retornar para o interior do palácio.  "Tenho agora de julgar um conflito entre duas mulheres."

Um comentário:

  1. Gostei realmente, achei engraçado ele dizendo que era uma linha e não 2, mas que estava valendo mesmo assim heehe!

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