quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O Bom negócio

Por Fernando Coelho

 Foi sua culpa. Ele deveria ter acordado mais cedo. Sua mãe o cutucou, usou de persuasão, até o ameaçou, mas Abidã não sentiu vontade de se levantar do seu colchão de palha. Seu irmão e sua irmã mais novos acordaram uma hora antes, fizeram o desjejum com peixe defumado, pão e tâmaras e, em seguida, partiram para seus afazeres. A ausência deles deixou a casa silenciosa, perfeita para mais alguns momentos de sono.
 Algo  fez cócegas em seu pé. Abidã deu um chute leve. Um segundo depois, alguém começou a puxar Abidã pelo pé em direção ao chão de pedra. Seu pai não disse uma palavra. As queixas do menino não surtiram efeito. Ao passar pela porta principal, Zera não soltou o filho, arrastando-o até o pequeno pátio situado na frente da casa. Como todas as residências da vizinhança, o pátio era o lugar onde a família preparava as refeições e comia. O cheiro de fumaça dos incontáveis fogareiros a lenha pairava no ar.
 Zera soltou o pé de Abidã, mas, antes de o filho conseguir se levantar, seu pai pegou um jarro de água e despejou o conteúdo no rosto do menino. Era melhor ele não reclamar. Em poucos minutos, Abidã tinha trocado de roupa e estava na oficina limpando o entulho da construção do dia anterior e afiando as ferramentas de corte. Ele tinha pressa. Ia se encontrar com o rei outra vez.
 Ele não teve tempo de fazer a refeição matinal e também não teve tempo de pedir desculpas por ser preguiçoso. Finalmente, seu pai disse sua primeira palavra da manhã: "Vai".
 Transpirando, Abidã corria pelos caminhos da cidade; tentava chegar ao palácio na hora. Censurava-se por ser tão indolente.
 A expressão do criado agora familiar denotava desaprovação. "Você está atrasado, garoto."
 "Sim. É minha culpa. Peço desculpas."
 "Guarde suas desculpas para o seu rei."
 Como anteriormente, o criado conduziu Abidã pelo imponente edifício até a sala do trono.  Na porta, Abidã sentiu um frio na espinha. Salomão estava sentado no trono e dois homens, com aproximadamente a idade do seu pai, estavam parados diante do rei. Abidã esperou na soleira da porta até o criado fazer a apresentação.
 Salomão virou a cabeça; seu olhar estava gélido. Apontou para Abidã, depois fez um sinal para ele entrar. Abidã não desperdiçou mais o tempo do rei.
 "Majestade, que  o senhor tenha uma vida longa. Peço desculpas pelo meu atraso."
 "Silêncio! Sente-se" O rei indicou o primeiro degrau do tablado do trono. Abidã praticamente tombou sobre o degrau, grato por o rei tê-lo autorizado a ficar. As perguntas preenchiam sua mente. Por que aqueles dois homens estavam ali? Abidã sabia que o rei atuava como juiz em relação aos litígios. A pergunta mais insistente era: por que ele, o pobre filho de um carpinteiro, tinha a permissão de estar presente?
 "Podemo começar", afirmou Salomão. "Você, Kenan, trouxe a queixa. Escutarei você em primeiro lugar."
 "Sim, majestade. Fui ultrajado, enganado, iludido e perdi todo o dinheiro que tinha para este homem". Ele apontou para o acusado, um homem alto e magro, com expressão serena. Kenan, contudo, tinha o rosto enrugado, como o dos homens que passam seus dias sob o sol inclemente. Sua barba era mais grisalha que a do outro homem, mas, aos olhos de Abidã, a suposta vítima era mais jovem que o acusado.
 "Isso não é verdade Majestade."
 Um olha duro de Salomão calou o acusado. O rei voltou sua atenção para Kenan. "Prossiga." O rei pareceu entediado.
 "Majestade, juiz justo de toda Israel, acredito que esse homem deve devolver tudo o que investi por causa dele."
 "Você entregou seu dinheiro para Aziel como investimento?"
 "Sim, Majestade. Ele prometeu que eu fiaria rico em pouco tempo, mas mentiu para mim, pegou meu dinheiro e não enriquei."
 Salomão suspirou prologadamente. "Qual é a sua resposta, Aziel?"
 "Majestade, sábia e verdadeira, o que Kenan diz é mentira. Dei-lhe a oportunidade de ganhar mais dinheiro do que ele jamais ganhou na sua vida miserável. No entanto, ele foi preguiçoso demais para pôr meu plano em pratica."
 "E qual é esse plano, Aziel?"
 "Tenho certeza de vossa Majestade vislumbrará a grande sabedoria desse ideia. Como o rei sabe, os peregrinos do norte do país e das regiões mais remotas do sul do reino vêm a Jerusalém nos períodos sagrados, principalmente na Pessach (a páscoa judaica) e no Sucot (a festa dos tabernáculos). Muitos vêm para celebrar e fazer sacrifícios no templo." Aziel sorriu. "Certo dia, observando os peregrinos no templo, ocorreu-me que muitos deles têm necessidade de animais de sacrifício. Como vossa Majestade sabe, diversos tipos de animais são utilizados nos sacrifícios e muito peregrinos sofrem perdas nas suas viagens, o que os força a encontrar novos cordeiros ou pombos."
 "E você vende esse animais para os peregrinos?". Perguntou Salomão.
 "Não diretamente, Majestade. Fiz acordos para comprar esses animais com desconto, e outros os vendem para mim. Eles comprar os animais de mim e, depois, os revendem para os peregrinos."
 "E você lucra com a revenda deles?"
 "Sim, Majestade."
 Salomão dirigiu a atenção para Kenan. "Você pode responder."
 "Ele não contou toda a história, Majestade. Aziel exigiu que eu comprasse mais do que aquilo que eu poderia vender. Ele também vendeu para a minha concorrência. Fiz algumas vendas, mas não o suficiente para recuperar meu investimento inicial. Aziel disse que sou preguiçoso, mas trabalhei do nascer do sol até o pôr do sol todos os dias."
 "Se o senhor me conce a palavra, Majestade, digo que sou um homem generoso. Minha mulher diz que dou até demais. Ofereci a Kenan e para todos que trabalham comigo a oportunidade de convocar pessoas para trabalhar com elas, e, se elas tivessem feito isso, dividiriam o lucro obtido."
 "Já escutei o suficiente", afirmou Salomão. "Kenan."
 "Sim, Majestade."
  "Você foi um tolo. Você celebrou um acordo que somente poderia resultar em prejuízo. Por que aceitou essa proposta?"
 Kenan deu a impressão de ter sido atingido por uma lança. "Aziel me prometeu um lucro rápido com pouco trabalho."
 "E você acreditou nisso?" Salomão balançou a cabeça. "Isso não lhe pareceu muito bom para ser verdade?"
 Kena abaixou a cabeça.
 Salomão Prosseguiu: "Quem lavra a sua terra terá muito pão, mas o que busca somente coisas vãs terá somente muita pobreza" (Provérbios, 28:19). O rei fez uma pausa. "Você compreendeu o provérbio, Kenan?"
 "Creio que sim, Majestade."
 "Abidã, explique o provérbio."
 O medo tomou conta do coração de Abidã. Ele se pôs de pé, surpreso por realizar tal façanha. "Sim, Majestade." Encarou Kenan e tentou não tremer. Um garoto de treze anos era considerado um homem, mas era impróprio para alguém com tão pouca idade dar uma lição de moral para um homem mais velho. 'O provérbio do rei significa que o homem sábio é aquele que trabalha duro em seu negócio e não acredita em promessas de riqueza de estranhos." Abidã dirigiu o olhar ao rei, para ver se tinha dado uma resposta adequada. O rei concordou com um gesto de cabeça.
 Outro provérbio Kenan: 'Será sábio o que com sábios caminha, mas se embrutece quem anda com os tolos'" (Provérbios, 13:20). Quando Salomão disse a palavra "Tolos" , virou-se na direção de Aziel. "O menino precisa explicar o provérbio?"
 Os dois homens responderam que não.
 Salomão se aprumou  em seu trono. "Kenan e Aziel, escutem minha sentença. Você, Kenan, foi guiado pela cobiça. Por causa disso, não vou pronunciar o veredicto em seu favor. O que você perdeu, perdeu. Possivelmente, agora você ganhou mais em sabedoria do que perdeu em dinheiro."
 Kenan abaixou a cabeça. "Sim, Majestade."
 Abidã percebeu que Aziel abrira um grande sorriso, que evaporou no momento em que Salomão dirigiu a palavra para ele. "Não quero mais ver a sua cara, Aziel, principalmente nesta sala. A cobiça de Kenan cegou sua visão e o fez perder a honra. Se você tiver um pouco de sabedoria, Aziel, voltará a pensar no que fez e no prejuízo que causou. Deixe-me... agora mesmo."
 Aziel esboçou pronunciar uma resposta, mas logo mudou de ideia. Abidã considerou essa uma decisão muito sensata. Aziel saiu da sala sem olhas para trás.
 "Kenan, você veio até mim em busca de justiça. Você não acredita que a recebeu. Provavelmente, um dia acreditará. Você pode ir."
 Após a saída de Kenan, Salomão se ergueu do trono elevado e desceu até o piso. "Alguma dúvida, Abidã?"
 "Não sou sábio o suficiente para compreender o que vi."
 "Você considera minha decisão equivocada. Você acha que eu deveria ter obrigado Aziel a devolver o dinheiro para Kenan. Estou certo?"
 "Como sempre, Majestade."
 "Quem obrigou Kenan a celebrar o acordo com Aziel?"
 "Ninguém, Majestade. Ele tomou a decisão por sua própria conta, mas Aziel fez falsas promessas."
 "As promessas não eram falsas", afirmou Salomão, balançando a cabeça. "Eram exageradas. Algo que Kenan deveria ter percebido. O plano de Aziel pareceu inteligente para você?"
 "Não, Majestade."
 "Ótimo. Você não aprendeu que um homem é responsável por suas próprias ações e seus próprios negócios?"
 "Sim, Majestade."
 "Não teria feito nenhum favor a Kenan obrigando Aziel a devolver o dinheiro. Provavelmente Kenan se tornará mais sábio, embora mais pobre."
 "Mas Aziel não continuará a fazer a mesma coisa para os outros?"
 "Acredito que sim, Abidã. Há muitas pessoas que procuram formas rápidas de enriquecer, o caminho ligeiro para a riqueza. No fim, isso custa para elas mais do que elas ganham. Aziel sofrerá por causa de suas ações. Homens como ele sempre sofrem. Conclua esta frase, Abidã: 'Se existisse um caminho fácil para a riqueza e segurança, então...'"
 Abidã refletiu por um momento. "... então todos seriam ricos e se sentiriam seguros."
 "Sim, Abidã. O caminho sábio não é o caminho fácil para a riqueza, mas é o caminho mais reto. Você compreende?"
 "Compreendo, Majestade."
 "Então vá ajudar seu pai."
  Abidã fez menção de se retirar.
 "Uma última coisa, fihlo. Não me faça esperar de novo."
 "Eu prometo, Majestade", afirmou Abidã com um sorriso.

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