sábado, 7 de abril de 2012

MALHANDO A MALHAÇÃO DE JUDAS

por Eddie Van Feu
Costume trazido ao Brasil pelos espanhóis e portugueses, a malhação de judas costumava acontecer hoje, Sábado de Aleluia, como uma referência à Judas Iscariotes que traiu Jesus, e por isso merecia apanhar até a morte e ser enforcado num poste. A tradição, graças a Deus, está cada vez mais rara, sobrevivendo ainda nas regiões mais pobres e rurais. Alguns lamentam a perda da tradição, mas sinceramente, sempre achei assustadora a demonstração de violência macabra que as pessoas exibiam. Com o tempo, o Judas foi substituido por alguma pessoa que merecia ser malhada, geralmente um político corrupto. O tom jocoso tornou o evento mais interessante, mas não foi o bastante para mantê-lo vivo (o evento, não o político corrupto, que infelizmente sempre sobrevive a todo mundo).

Mas a tradição cristã não é tão nova assim. O Judas queimado é uma personalização das forças do mal e se origina de antigos cultos agrários. Em povos antigos, eram comuns as festas de alegria no início e fim das colheitas para melhores resultados nos trabalhos do campo e atrair a fartura. Queimava-se um boneco representando o deus da vegetação (Nicholas Cage fez um filme tenebroso de ruim sobre isso).

De acordo com a magia simpática e representativa, o fogo é o sol e o processo se destina a garantir às árvores e plantações o calor e a luz, sem a qual nada sobrevive. A figura em chamas é uma representação do fogo criador e mantenedor. O sacrifício do traidor adquire, na tradição cristã, outro significado. De iluminação para a fartura da próxima colheita como um tributo ao sol dos antigos pagãos, torna-se um ritual de culpa e punição.
Aqui no Brasil, costumava-se fazer-se o julgamento de Judas, sua condenação e execução. Antes do suplício, alguém lê o "testamento" de Judas, em versos, colocado especialmente no bolso do boneco. O testamento é uma sátira das pessoas e coisas locais, dando o tradicional tom de humor do brasileiro.

Mesmo com formação católica, sempre achei a malhação de Judas horrorosa, especialmente porque eu gostava muito de Judas. Quando criança, sabia que ele não tinha sido um traidor, mas um instrumento para que um evento maior acontecesse. Sempre que o via retratado como um vilão, ficava triste, pois diziam as Vozes que Judas tinha sido (e ainda era) um grande amigo de Jesus. Quando vi o filme Jesus Cristo Super Star, tive o prazer e o conforto de ver a versão que sempre foi verdadeira pra mim (embora na minha versão, ninguém cantava). Por isso, é o meu filme favorito até hoje e supera todos os filmes de paixão de Cristo que já vi, tornando aquela porcaria que o Mel Gibson fez totalmente irrelevante. Afinal, alguém que transforma a maior mensagem do nosso tempo em litros e litros de suco de groselha para alegria de sádicos não pode ser levado à sério.

Deixo você com a versão da Última Ceia de Jesus Cristo Super Star pra alegrar seu sábado de aleluia. Se não gostar, pode pegar uma Barbie morena e me malhar em praça pública.

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