terça-feira, 15 de outubro de 2019

Professores e Prédios que Caem: O Brasil Precisa de Mais Margaridas

por Eddie Van Feu

Tia Albertina e eu. Queria ter tirado foto com todos os meus professores!

Hoje é dia do professor. E hoje também é o dia em que caiu um prédio de sete andares lá em Fortaleza. Sim, um prédio inteiro caiu, de repente, sem aviso, do nada. Ele estava lá parado e, de repente, não estava mais.

E enquanto se pensa na impunidade dos responsáveis, a mesma que não puniu quem derrubou o Palace II, o Liberdade e o prédio ilegal da Muzema construído pela milícia, eu paro e penso na Margarida.

Margarida foi uma senhora muito rígida, professora de Português das melhores, que tive quando fiz Jornalismo na Estácio de Sá. Ela não passava a mão na cabeça, não desistia de exigir o melhor e forçava todo mundo a aprender. Eu ouvia muitas queixas dela! Tinha um aluno que estava na faculdade há quase oito anos porque não conseguia passar na matéria dela. 

O garoto da minha esquerda me mandou um beijo e eu, aviltada, virei a cara com desdém (para o lado errado) e saí de olhos fechados.

E ela foi uma das minhas melhores professoras! Ela conseguiu me ensinar crase! E me forçou a ser melhor. E acabou forçando a turma, por minha causa. Eles me odiaram na época, mas problema deles! Ela dava temas bem loucos para escrevermos matérias porque queria ler o que eu ia escrever, e a turma enlouquecia com isso!

“Mas o que a Margarida tem a ver com o prédio que caiu em Fortaleza, Eddie? Você andou bebendo?”

Não, não andei bebendo, embora às vezes eu tenha vontade (geralmente, sempre que ligo a televisão em algum jornal). O fato é que esses prédios estão caindo por FALTA DE MARGARIDAS NO BRASIL! E não são só prédios, mas ciclovias, ruas que afundam, buracos do metrô que vão ceder a qualquer momento... A gente vive dizendo que é por causa da corrupção, e em parte é! Mas lá no fundo está a falta de uma Margarida na vida de um engenheiro, de um médico, de um advogado, de um juiz, de um funcionário público atrás de um balcão. 

Professora Elaine, lá dos primórdios, quando eu era conhecida apenas como a "menina dos cachinhos".

Um gerente melhor preparado saberia quando jogar as regras pro alto e caminhar até o estacionamento para dar prova de vida a um idoso doente que precisa ser carregado banco adentro porque a besta quadrada que senta atrás daquela mesa de gerente diz que não pode ir porque é contra as regras. Uma Margarida estaria lá para lhe dar um pouco de visão e interpretação de texto, para que ele pudesse ver o quadro maior.

Um bancário que exige uma assinatura de um outro idoso doente que que é carregado banco adentro para dar sua prova de vida e não tem condições de assinar saberia que não precisa de assinatura nenhuma se tivesse tido uma Margarida que o ensinasse a ler. E ele não carregaria agora o karma de saber que o idoso foi parar no hospital.

Um engenheiro competente saberia que não pode fazer vigas que não sustentam o peso do prédio, ou que não pode derrubar uma parede qualquer só porque vai ficar mais bonito. Uma Margarida teria lhe dado várias surras na faculdade e não permitiria que essa anta se formasse e destruísse tantas vidas.

Médicos e enfermeiros que saem errando por aí, deixando um rastro de lágrimas, dor e destruição, jamais teriam saído da faculdade se tivessem esbarrado com uma Margarida... 

Professora Elaine e sua turma do meu querido e eterno I.E.S.A.


Eu lembro de uma aluna que era mais velha e que reclamava muito dessa professora, que ela a perseguia, que seu texto era bom e que a Margarida é que estava errada, etc. Um dia, eu estava sentada ao lado dela e pedi para ver a prova. Enquanto ela reclamava, eu arregalava os olhos lendo horrorizada o texto que não fazia sentido nenhum!!! Não era só erro de Português, era total falta de coerência. Eu acho que ela era disléxica. Quando fui procurar emprego, adivinha em que vi sentadinha numa redação de jornal trabalhando num jornal??? A própria! A diferença é que os inúmeros erros dessa moça não iriam derrubar prédios ou matar pessoas. Só tornariam o mundo do jornalismo mais analfabeto e pobre.

Então, nesse Dia do Professor, eu agradeço aos professores que não desistiram. Agradeço às Margaridas, aos Argolos, aos Luíses Henrique, Wilsons Areias, Fabinhos e Paulinhos. Agradeço, claro, às bases das Tias Albertinas, às donas Giovannas, donas Rosinhas e donas Inocências. Agradeço até ao imbecil do Hugo, professor de Publicidade que fazia questão de deixar claro para a turma inteira sua ideia de que eu era uma modelo que queria fazer faculdade como um atalho para o sucesso (atalho grande esse, hein?). Se não fosse por ele, eu não teria tomado desgosto pela publicidade, e escolhido mudar para Jornalismo, que se mostrou realmente um caminho melhor para mim.

Eu agradeço, claro, aos professores de cursinho também! De dança, de modelo, de passarela, de quiromancia, de inglês, de francês, de desenho, de quadrinho, de piano... Eu agradeço demais por ter tido vocês em minha vida! 

Jerônimo, meu professor de Jazz por anos.


E agradeço aos meus alunos, por me permitirem ensinar o que sei! Sem vocês, minha vida seria mais vazia.

E eu desejo a todos os professores que sejam o mais MARGARIDAS que vocês puderem! Mesmo que as regras exijam que vocês se contentem com a mediocridade e imbecilidade dos alunos para poupar a frágil autoestima dos jovens. Mesmo que seja difícil. Mesmo que seja árduo! Que vocês sejam Margaridas todos os dias e não deixem passar por vocês pessoas que se recusam a aprender! Eu sei que estou pedindo algo muito, muito difícil! Sei que vocês estão sobrecarregados e mal pagos! Sei que poucos os valorizam como deveriam. Mas precisamos de vocês para que esses prédios fiquem de pé...



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