segunda-feira, 9 de agosto de 2010

OS VAMPIROS NAS ANTIGAS CIVILIZAÇÕES

por Ricky Nobre


Iniciamos hoje nossa Semana dos Vampiros. Apresentaremos diariamente matérias curiosas sobre vampiros nas mais diversas culturas e épocas. Na sexta feira, dia 13 de agosto, é o Dia dos Vampiros, e teremos uma promoção bacanas para nossos leitores. Vamos começar falando dos vampiros nas antigas civilizações.

O vampiro é o mais popular, fascinante e cultuado monstro do imaginário mundial. Desde suas origens nas lendas antigas da Grécia e Malásia, passando pelos casos inexplicáveis registrados na Europa, até o grande boom literário inaugurado com Drácula de Bram Stoker e a contribuição cinematográfica para inserir este ser da noite definitivamente na cultura pop, o vampiro foi sendo lentamente construído com pedaços de folclore, mitologia, misticismo, religião, ficção, realidade e uma boa dose de sede por sangue, não por parte dos vampiros, mas por parte do povo. O mito do vampiro nasceu de forma independente em diversas regiões do planeta em diferentes épocas, muitas vezes se fundindo umas às outras originando, enfim, a “cara” do vampiro moderno.

Provavelmente o mais antigo mito vampírico vem da Grécia antiga, em cuja mitologia podemos encontrar algumas criaturas, sendo que a principal delas é o lamiai. O nome lamiai origina-se de Lamia, uma rainha líbia que era amada por Zeus. Enciumada, sua esposa Hera despejou sua ira sobre Lamia, tirando a vida de todos os seus filhos, que tinham Zeus como pai. Incapaz de se vingar diretamente, Lamia refugiou-se numa caverna e atacou os filhos de mães humanas, bebendo o sangue das crianças. Essa prática a transformou em um monstro, com o corpo deformado, sendo que a parte inferior era em forma de serpente. Um pé era feito de latão e o outro de um animal, como bode, boi ou jumento. Essa história deu origem às lamiai, seres demoníacos que se alimentavam do sangue de crianças, mas que também podiam assumir a forma de belas jovens para atrair e atacar homens fortes.

Outros vampiros gregos são as mormolykiai, bem semelhantes às lamiai. Seu nome vem da história de Mormo, mulher que devorou os próprios filhos. Temos também as empusai, também vampiras em forma de mulher. Todas essas não são os clássicos vampiros que se levantam após a morte, mas sim entidades demoníacas com sede de sangue. A cultura grega, porém, tinha sua versão vampiro como morto-vivo: os vrykolakas, nome cuja origem vem dos eslavos do sul e significa “pessoa que veste pele de lobo”, referindo-se à crença eslava de que um lobisomem tornava-se um vampiro depois de morto. Em algumas histórias dos vrykolakas, os mortos-vivos não traziam mal algum aos vivos, voltando apenas para resolver problemas inacabados. Outras histórias dão conta de pessoas que voltam da morte e se estabelecem em locais onde não são conhecidos e constituem família. Alguns motivos eram dados como básicos para uma pessoa voltar da morte: uma maldição imposta por um dos pais, atos malignos ou desonrosos cometidos contra a própria família, morrer de forma violenta ou ainda não ter sido enterrado. A associação dos mortos vivos aos vampiros ocorreu só após o primeiro milênio da Era Cristã, quando concretizou-se a grande expansão da Igreja Católica na Grécia, Romênia, Rússia e entre os povos eslavos do sul, o que gerou a fusão das diversas crenças desses povos. Desta forma, o pacífico morto-vivo grego tornou-se o vampiro sedento de sangue dos romenos e eslavos.

Muito semelhante às lamiai gregas são as langsuyar da Malásia. A lenda se origina de uma mulher de beleza fora do comum que perdeu o filho no momento do parto. A tragédia fez a pobre mãe se retorcer violentamente, para então bater palmas e voar até uma árvore próxima. Ela seria vista de tempos em tempos trajando vestes verdes, as longas unhas que eram o padrão de beleza dos malaios e longos cabelos negros até o chão, que escondiam um orifício no pescoço por onde sugava o sangue de crianças. Se uma mulher morria no parto ou até quarenta dias após, acreditava-se que ela poderia se tornar uma langsuyar, o que podia ser evitado colocando vidro na boca, ovos nos braços e agulhas nas mãos. Uma langsuyar podia ser domesticada, se alguém conseguisse cortar seus cabelos e unhas e enfiá-las no buraco do pescoço. Ela podia até casar e ter filhos, como acreditava-se que acontecia com algumas desconhecidas que chegavam nas vilas. Mas elas podiam retomar suas forças e voltarem às suas práticas, o que costumava acontecer ao dançarem em festas na vila. Outra figura vampírica da Malásia era o pontianak, que nada mais era do que a criança que morria no parto, que assumia a forma de uma coruja. Os mesmos rituais usados com a mãe eram usados com a criança para evitar a transformação.

Existiu também histórias envolvendo as penanggalans, que tiveram origem no conto sobre uma jovem que participava de uma cerimônia de penitência. Ela estava sentada sobre um grande barril de vinagre e foi surpreendida por um homem que perguntou o que ela estava fazendo. O susto foi tão grande que a cabeça se separou do corpo, carregado o estômago junto. Essa cabeça arrastando o estômago atrás de si se tornou um espírito maligno, e aparecia nos telhados das casas onde haviam crianças recém nascidas para sugar o sangue delas. Acreditava-se que esse espírito podia possuir uma mulher, transformando-a numa feiticeira, capaz também de separar a cabeça do corpo para se alimentar de sangue dos vivos e também dos mortos. Esta idéia é semelhante às de outras culturas que também relacionavam os vampiros às bruxas. Tanto que uma versão alternativa da origem de uma pernanggalan diz que ela nasce quando uma bruxa evolui a ponto de aprender a voar. Assim, com a cabeça voando com os intestinos pendurados, procura não apenas o sangue de crianças recém nascidas, mas de mulheres em trabalho de parto.

Na Roma antiga, temos novamente as bruxas relacionadas a vampiros na figura das stregas. Elas se originaram do strix, espírito maligno que atacava à noite, sugando o sangue de crianças. As stregas eram bruxas que tinham o poder de se transformarem em pássaros e voarem durante a noite à procura de sangue humano. Acreditava-se que queimar ou canibalizar corpos de stregas seria a forma de se livrar delas para sempre. No século IX, Carlos Magno proibiu essa prática, punindo-a com a morte, tentando conter os crescentes casos de mortes de pessoas acusadas de bruxaria e vampirismo. Alguns séculos mais tarde, a caça às bruxas seria institucionalizada pela Igreja Católica, e a vampirização de bebês permaneceu oficialmente como a característica de uma bruxa, muito embora a Igreja negasse veementemente a existência de qualquer espírito, entidade ou outro ser proveniente de culturas pagãs, explicando qualquer fenômeno como sendo obra de Satã.

Paralelamente a isso, nas Américas, temos Camazotz, o deus das cavernas da cultura maia. Sendo o lar natural dos morcegos hematófagos, era natural que surgissem lendas baseadas nesse animal capaz de beber o sangue de animais e humanos de forma tão suave que sequer acorda a vítima. Camazotz era um homem-morcego de grandes dentes, nariz afiado e grandes patas. Era muito temido não só por sua sede por sangue mas por levar perigo às plantações de milho.

Na cultura asteca temos diversas figuras que cercavam a “mãe terra”, todas sedentas por sangue, como Tlalteuctli, em forma de sapo, Coatlicue (saia de serpentes), Itzpapalotl (borboleta obsidiana) e Cihuacoatl (mulher serpente). Esta última tinha aparência aterrorizante, mas podia assumir a forma de uma bela jovem para atrair rapazes. Mas era a cihuateteo que se aproximava às vampiras nascidas em outros continentes. Novamente, eram mulheres que morriam no parto, que atingiam os status de guerreiras por terem enfrentado as dores do parto e morrido lutando. Elas vagavam à noite atacando crianças, e a luz do sol poderia matá-las. Mais tarde surgiram as tlahuelpuchi, já no período após a devastação da cultura asteca pelos espanhóis. Essa figura mesclava divindades astecas à figura da bruja espanhola, muito semelhante à strega romana. Sendo assim, a tlahuelpuchi era a mulher com poder de se transformar em animal e sugava o sangue de recém nascidos. Ela já nascia bruxa e a descoberta dos poderes de dava após a primeira menstruação. A utilização de alho junto às crianças era uma forma de repelir as tlahuelpuchis.

Os africanos também tinham suas figuras vampíricas. O obayifo também era um bruxo, capaz de sair de seu próprio corpo à noite e viajar como uma bola de luz e também atacava crianças para sugar o sangue. Cada região dava diferentes nomes a esses bruxos que possuíam poderes e hábitos muito semelhantes.

É imensamente curioso notar que diversas culturas desenvolveram o mito do vampiro em torno da mortalidade infantil, da pureza do sangue e do trauma materno, sem que jamais tenham entrado em contado uma com a outra, como os gregos e os astecas. Mas o vampiro moderno nasceu mesmo do vampiro eslavo e romeno. Mas estes nós conheceremos na próxima matéria. Um abraço noturno e até lá!

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